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Coronavírus:
Por que testes de anticorpos podem levar a uma guinada na saúde e na economia
BBC News Brasilhá 4 horas
Uma busca em massa por anticorpos nas pessoas pode permitir descobrir a
real taxa de letalidade do novo coronavírus
Onde está a luz no fim do túnel da pandemia
de coronavírus, que já infectou em torno de 500 mil pessoas ao
redor do mundo? Em que momento quase 3 bilhões de pessoas vão poder sair de
casa normalmente sem medo de ficar doente?
Para responder isso, precisamos de menos incerteza
ao fazer, por exemplo, cada vez mais testes para determinar quem está
infectado, medida que pode aplacar a preocupação de muita gente e garantir uma
estratégia eficiente de combate ao vírus, como na Coreia do Sul.
Mas uma das respostas que podem marcar uma virada
nessa pandemia, junto com remédios e vacinas que funcionem, passa não por
quantas pessoas estão doentes hoje, mas por quantas já enfrentaram
silenciosamente o vírus e sequer perceberam.
Uma busca em massa por anticorpos nas pessoas pode
permitir descobrir se todos esses números de infectados e mortos que crescem a
cada dia são apenas a ponta de um iceberg.
Se for o caso, será possível tirar duas conclusões.
A primeira é que a taxa de mortalidade, hoje estimada em cerca de 3,4% pela
Organização Mundial da Saúde (OMS), pode ser bem menor do que se sabe.
A segunda é que milhões de pessoas podem já ter
contraído o vírus, desenvolvido algum grau de imunidade e, portanto, não
precisariam ficar isoladas.
Essa informação pode influenciar decisões políticas
e determinar se o principal "remédio" adotado pelas autoridades
contra essa crise — no caso, quarentenas de quase 3 bilhões de pessoas — está
na dose certa ou se ele vai ser pior que a doença e matar o paciente, como tem
se questionado, a exemplo do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro.
O debate em torno da real gravidade do novo
coronavírus, que matou quase 24 mil pessoas desde dezembro, se agrava ainda
mais porque trata de vidas humanas.
Testes para detectar o coronavírus no momento podem ser feitos com base
em amostras de secreção respiratória
Minoria reage a
confinamentos
Há uma grande divergência entre basicamente dois
grupos. De um lado, uma pequena minoria que inclui os presidentes de Estados
Unidos, Brasil e México e alguns especialistas. De outro, amplamente
majoritário, estão mais de cem líderes mundiais, a OMS e a maioria dos
pesquisadores.
O primeiro grupo, no qual estão Donald Trump e Jair
Bolsonaro, defende que os dados disponíveis, ainda que escassos, apontam que a
doença não é tão devastadora para a população em geral. Ela se parece com a
gripe (ou uma "gripezinha") que circula todo ano. Por isso, seria
possível contê-la sem tamanha perda econômica.
Ou seja, argumentam eles, qual é a necessidade de
confinar a população inteira se apenas uma minúscula parcela corre de fato o
risco de morrer? No caso, as pessoas com mais de 60 anos e aquelas com
condições pré-existentes, como doenças cardíacas e diabetes.
Segundo a abordagem defendida por esse grupo
minoritário, chamada de isolamento vertical, bastaria proteger os mais
vulneráveis e retomar a vida do restante da sociedade até que todo mundo fique
imunizado com conta própria.
A conta é que, quando mais de 50% da população
estiver imunizada, seria como se todos estivessem vacinados. Ocorreria a
chamada "imunidade de grupo ou de rebanho", na qual a imunidade de um
acaba protegendo o outro por reduzir a cadeia de transmissão do vírus.
É importante deixar claro que ainda há dúvidas se
de fato as pessoas que tiveram a doença uma vez a não terão de novo, como em
geral acontece. Saber isso é chave nesse debate.
Os anticorpos são uma espécie de memória de batalha
do nosso corpo contra um invasor. Em geral, a gente o derrota uma vez e não se
esquece como faz isso.
O problema é que essa imunidade nem sempre ocorre
ou é completa. O sarampo tem, por exemplo, a capacidade de fazer o corpo se
esquecer de como o combater.
Por outro lado, a grande maioria das autoridades e
de especialistas defende que a falta de dados não permite tirar conclusões
precipitadas que podem levar ao colapso do sistema de saúde, mesmo que todo
esse confinamento gere enormes custos econômicos.
Para esse segundo grupo, não se trata de um cenário
hipotético baseado em modelos matemáticos, mas da realidade, e equívocos aqui
podem levar à morte de milhares ou milhões de pessoas. Ou seja, uma
"gripezinha" seria capaz de lotar hospitais ao redor do mundo de uma
forma sem precedentes na história recente.
Não há até o momento qualquer remédio, vacina ou
certezas sobre o novo coronavírus. Por isso, o mundo tem se isolado para evitar
que as pessoas transmitam a doença entre umas para as outras e que muita gente
fique doente ao mesmo tempo, impedindo que o sistema de saúde tenha a
capacidade de atender todo mundo.
Coronavírus foram batizados assim por causa das pequenas 'coroas' na
superfície
Anticorpos podem
influenciar debate
Há então como sair desse impasse? Ou essa situação
de confinamento durará meses ou até anos?
Bem, uma saída que vem sendo discutida em alguns
lugares do mundo, principalmente no Reino Unido, é o teste sorológico massivo e
controlado, feito a partir de amostras de sangue, para encontrar nas pessoas
anticorpos ligados ao novo coronavírus.
Diversos países estão desenvolvendo e investindo
nesses testes, entre eles o Brasil. Especialistas ressaltam que é essencial que
essas análises sejam seguras e confiáveis, sem falsos positivos ou falsos
negativos, que poderiam ter consequências catastróficas, como expor à
contaminação alguém que acredite falsamente que está imune.
O governo britânico decidiu comprar 3,5 milhões de
unidades destes testes. A estratégia pode envolver enviar esse material para a
casa de habitantes selecionados a fim de tentar descobrir de fato quantas
pessoas contraíram o vírus sem saber.
Há uma pequena parcela de pesquisadores que estima
que o número de pessoas infectadas que podem já ter adquirido imunidade pode
ser dez, cem, mil vezes maior. Ou que a doença mata uma pessoa a cada cem, uma
a cada mil ou uma a cada dez mil, como uma gripe.
Para o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson,
o resultado desse experimento pode vir a representar uma grande virada na
estratégia de combate à pandemia. Se descobrirmos que a maioria da população já
teve contato com o vírus, as medidas de distanciamento social poderiam até ser
flexibilizadas ou extintas.
Em última instância, no cenário mais otimista, isso
poderia levar à reabertura de lojas, escolas e locais de trabalho, por exemplo.
O novo vírus faz parte da família dos coronavírus, que inclui Sars e
Mers
Para se ter uma ideia, pesquisadores de Oxford
estimaram em um exercício teórico que até metade do Reino Unido já pode
contraído o vírus. Mas isso é apenas uma hipótese. Só esses testes massivos e
controlados com anticorpos poderão esclarecer isso.
Esses testos sorológicos são importantes também
para as equipes de saúde serem monitoradas constantemente e evitar que elas
contaminem outras pessoas ou sejam contaminadas.
E se esse experimento não encontrar um percentual
expressivo de pessoas com anticorpos? Isso não deixa de ser uma informação
extremamente relevante também. Caso se confirme essa hipótese, teremos ainda
mais certezas sobre:
- a importância do distanciamento social para evitar
a disseminação da doença e todas as medidas de higiene recomendas, como lavar
as mãos com sabão por ao menos 20 segundos;
- o investimento e a mobilização inédita em testes
clínicos para encontrar possíveis tratamentos, já que nenhum até agora foi
aprovado para esse fim;
-
e de que o desenvolvimento de uma vacina é essencial, algo que pode levar no
mínimo mais um ano, já que é preciso garantir também que ela funcione e não
tenha o efeito contrário, de nos deixar mais vulneráveis ao vírus.
















